Nos dias que se seguiram o fenômeno das asas ocultas tornou-se a repetir, mas, passado o susto, eu já não me atordoava mais com aquela imagem surreal.
Permiti-me apenas admirar a beleza de um anjo em seu repouso.
Contudo, a familiaridade com aquela visão diminuiu, naturalmente, o entusiasmo que a mesma produzia em mim.
Passado algum tempo, eu, sem ter conseguido ainda captar o sentido de um ser com asas dormindo em minha cama, me senti amedrontada.
Não temia por mim, mas pela própria Sara.
O que seria daquela criança, tão absurdamente normal na maior parte do tempo, se mais alguém descobrisse o seu segredo?
Como ela reagiria quando tomasse consciência de suas asas?
Para que serviriam aquelas asas?
E então, ao ter estes anseios somados àqueles que naturalmente assombram o coração de qualquer mãe, eu constantemente me entregava ao choro.
Deitava ao lado de minha filha e, procurando não fazer muito barulho para não lhe acordar (porque é pecado acordar um bebê, ainda que ele tenha asas) eu transbordava as lágrimas que abasteciam minhas emoções.
Nas primeiras vezes eu tentei reprimir o choro, mas depois acabei me entregando a ele, até como uma estratégia na esperança de me livrar de todas as lágrimas que houvesse acumulado ao longo da vida.
Perda de tempo.
O líquido que jorrava dos meus olhos se multiplicava incessantemente. Eu jamais venceria esta batalha.
Com o passar dos anos, porém, pude observar que o par de membros extraordinários de Sara em nada afetava sua vida. Somente eu conhecia o seu segredo e, nem mesmo ela, nunca, jamais demonstrou por um segundo perceber qualquer anormalidade em si.
Isso foi, aos poucos, me tranquilizando.
Em geral eu mesma esquecia da existência das asas e já não era sempre que, ao vê-la dormir, reparava naqueles elementos extras de seu corpo.
Apenas quando estava relaxada e deitava ao seu lado admirando sua inocência, algumas vezes, eu percebia que elas ainda estavam ali. Ainda faziam parte de sua constituição, como se jamais fossem lhe abandonar.
Eu ainda chorava, porém com mais moderação.
Sentia orgulho por minha filha ser especial.
Mas sentia muito medo por não saber o que a esperava.


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3 comentários:

    Claudia Nandi Formentin disse...

    Estou adorando!!! Parabéns!

  1. ... on 2 de abril de 2009 07:34  
  2. Viviane Gaidzinski disse...

    Muito bom...Parabens!!

  3. ... on 16 de abril de 2009 18:57  
  4. diego paes disse...

    estou amando

  5. ... on 20 de abril de 2009 12:24